As memórias que o corpo guarda
No post anterior vimos que o corpo guarda nossas experiências e que ele conversa através de sinais, indicando quando está tudo bem ou quando algo precisa de atenção e cuidado.
Hoje, vamos falar sobre as memórias que o corpo guarda trazendo referências de alguns estudos e teorias, de forma simples, para criarmos um panorama de entendimento mútuo.
Há estudos e teorias avançando muito nessa direção de acessar e tratar as memórias do corpo através do próprio corpo, liberando padrões e curando traumas.
Antes, estávamos habituadas a buscar o consultório psicológico para resolver nossos dilemas. Mas nem tudo consegue ser resolvido no âmbito da conversa. As terapias estão cada vez mais incorporando elementos do corpo para tratar de forma ampla sintomas que parecem ser apenas físicos.
Vou falar muito brevemente sobre alguns caminhos, especialmente daqueles que eu conheço mais por já ter vivenciado no meu próprio corpo e por aprofundar-me nesses estudos.
Cada emoção vivida deixa um registro. O corpo é como um diário detalhado da nossa biografia. Ele guarda tensões, sensações e padrões que nasceram das nossas experiências passadas. Mesmo quando não lembramos conscientemente… o corpo lembra."
O psiquiatra Wilhelm Reich chamou essas tensões do corpo de ‘couraças’.
São como armaduras invisíveis que criamos para nos proteger de dor, medo ou rejeição.
Elas podem estar nos músculos, na respiração, na postura…
Com o passar do tempo, essas armaduras que criamos como estratégia de proteção, vão se tornando prisões. Já não sabemos mais como - e não conseguimos - agir sem elas.
Aprender a perceber essas couraças é o primeiro passo para nos libertarmos delas.
Aprender a perceber. Sim, nós aprendemos a perceber. E no final deste post você receberá uma prática de percepção para começar a treinar. Continua aqui comigo."
Enquanto Reich olhou para a postura corporal, aquilo que está vísivel, a Teoria Polivagal, de Stephen Porges, está olhando para os nossos circuitos internos, o sistema nervoso, e como através dele nós respondemos às mais variadas situações do cotidiano
Esse ‘circuito interno’ busca segurança o tempo todo. É o nosso sistema de preservação da vida. Ele é muito importante!
Quando nos sentimos em perigo, o sistema nervoso entra em alerta… respondendo com movimento ou com retração. É o famoso sistema luta ou fuga. Diante do leão eu corro ou eu ataco, dependendo dos recursos que eu tenho disponíveis ali no momento. Só que existe um terceiro caminho de resposta desse sistema nervoso que é o congelamento - ou desligamento. Vamos chamar de “fingir de morto”. Essa é a síndrome polivagal, - o sistema “desliga” a pessoa, porque entende que a ameaça é muito maior do que os recursos disponíveis para a pessoa lidar com a situação. Esse desligar pode ser um desmaio, literalmente desligando, mas também são outros sintomas em que a pessoa não consegue mais se autoperceber, ter uma leitura real do que está acontecendo e se autorregular na medida do que está sendo exigido dela. Daí vem, por exemplo, as crises de pânico. Ainda que pareça que está tudo bem no contexto, a pessoa (entre aspas) surta!
Quando nos sentimos seguros, o corpo relaxa, a respiração flui com naturalidade, e podemos nos conectar com os outros.
Quando o corpo, por associação, lembra de uma situação de ameaça, reage a uma situação antes mesmo que a mente perceba."
As nossas memórias não começam no nascimento.
A Psicologia Pré-natal nos mostra que experiências dentro do útero — sons, estímulos, as emoções da mãe, o contexto ao qual essa mãe está inserida durante a gestação, e também a forma como viemos ao mundo (o nosso parto) — deixam marcas nas nossas células, no sistema nervoso, nos nossos órgãos internos…
Juntamente com as memórias geracionais, aquilo que trazemos dos nossos antepassados pelo nosso DNA, todas essas impressões iniciais literalmente formam quem somos e moldam a forma como reagimos, confiamos e nos relacionamos no mundo.
O médico e pesquisador Gabor Maté, uma das maiores referências no tema do trauma, nos lembra que trauma não é simplesmente o que aconteceu - o fato em si - mas como aquilo que aconteceu foi percebido e interpretado dentro de nós.
Imagine um bebê chorando e sua mãe demora para atendê-lo porque ela está tomando banho. Ele cansa de chorar, e adormece. Esses minutos que ele não foi atendido ele interpretou como abandono. E criou dentro dele uma estratégia de que não adianta chorar porque ninguém virá em socorro dele. Então ele se fecha e passa a não mais demonstrar como se sente. E cria dentro dele a verdade de que não pode contar com ninguém.
Nós sabemos que a mãe estava no banho, que até ouvir o choro, desligar o chuveiro, se secar minimamente e chegar ao berço, isso tomou um tempo. Ela não abandonou o bebê. E ao vê-lo adormecido, ela interpretou que estava tudo bem. Mas o bebê, na sua condição limitada de bebê, criou outra história para si mesmo.
Estabelece-se assim um trauma. Uma dor interior que pode se apresentar através de sintomas físicos, padrões de comportamento, crenças, doenças, padrões emocionais, de relacionamento, ansiedade…depressão…
Você pode achar que o exemplo que eu trouxe é simplório demais, que isso não causaria um trauma. Pois é sobre isso que precisamos refletir. Não é a situação em si, mas como nós a interpretamos e a história que contamos para nós mesmos no momento para conseguir lidar com o que aconteceu.
Todos nós temos muitos traumas guardados em nós. E segundo o Gabor Maté, essas feridas poderão ser curada quando olharmos para elas. Quando elas forem vistas com consciência, compaixão e presença.
A cura não pode acontecer apenas no nível racional, no físico. A cura passa pelo corpo… porque é no corpo que está guardada essa memória."
O psiquiatra Bessel van der Kolk, no livro O corpo guarda as marcas, confirma essa visão. Ele mostra que o trauma fica impresso na nossa fisiologia, nos músculos, na postura, na forma como respiramos.
E que terapias que incluem o corpo — como movimento, respiração, toque, dança e yoga — podem transformar a vida de quem carrega traumas antigos, mesmo quando a mente já esqueceu.
Peter Levine, criador da abordagem Somatic Experiencing, também reforça que o trauma não está no evento em si, mas na energia que o corpo não conseguiu descarregar naquele momento.
É como se a experiência tivesse ficado congelada dentro de nós.
Quando aprendemos a liberar essa energia… o corpo volta ao fluxo natural de vitalidade, segurança e presença."
Percebe como diferentes autores, em diferentes áreas, apontam para a mesma direção?
Todos nos mostram que a cura acontece quando voltamos a escutar o corpo.
O corpo lembra. O corpo guarda.
E, quando abrimos espaço para ouvi-lo… ele nos mostra o caminho da cura.
Isso é maravilhosooooooo!
Minha mente não se lembra do trauma, isso não está no meu consciente, mas quando eu ofereço ao meu corpo essas terapêuticas, o corpo vai receber isso como “remédio” e de forma autônoma vai tratar e curar as memórias de trauma no nível físico, celular, fisiológico. Dissolvendo padrões, desfazendo crenças, liberando tensões, restabelecendo o equilíbrio integral do meu Ser! E isso não precisa passar pelo meu nível consciente.
Na verdade, nós não lembramos de tudo. E nem precisamos lembrar. Porque o corpo lembra. E o corpo cura.
Quer experimentar uma vivência de percepção do corpo?
Eu te convido a acessar o podcast O corpo cura e ouvir o episódio 1. Lá, finalizo nossa conversa com uma prática especial. Como eu disse anteriormente, ouvir o corpo é uma habilidade que desenvolvemos com a prática. Você pode refazer o exercício sempre que quiser.
O corpo é um guardião de histórias.
E quando aprendemos a ouvir, descobrimos os caminhos para libertar o que ficou preso e criar espaço para o novo.
O corpo lembra. O corpo sabe. O corpo cura.
Até o próximo post.

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